HEAVY METAL Investidor: A Regra dos 4% de William Bengen funciona? (Parte 4)

domingo, 24 de novembro de 2019

A Regra dos 4% de William Bengen funciona? (Parte 4)

 Neste quarto post da série sobre o SAFEMAX, falaremos sobre os aspectos que afetam diretamente a sua aplicação, resultados prováveis e o montante do patrimônio final do portfólio de aposentadoria com sua utilização. São conclusões minhas e também de alguns autores, com base em artigos sobre este intrigante tema de "TSR, SAFEMAX, SWR ou saque anual seguro".



 Escolhi 6 itens para este post número "4", deixarei os outros para o post "5". Para este post, explicarei sobre:

- País de Residência.
- Idade de Aposentadoria.
- Rebalanceamento de Portfólio.
- Estilo de Vida
Herdeiros ou Não?
- King of The Mountain


- País de Residência -

 Em 2010, Wade D. Pfau (Ph.D. em economia pela Universidade de Princeton) publicou o artigo "An International Perspective on Safe Withdrawal Rates from Retirement Savings: The Demise of the 4 Percent Rule?", onde simulou exatamente a aplicação da teoria de Bengen (criada e voltada para os Estados Unidos), com um SAFEMAX de 4%.



 Foram utilizados dados de 17 países com mercados desenvolvidos, de um período de 109 anos (de 1900 a 2008), com 80 datas de aposentadoria e 30 anos de duração cada. O SAFEMAX de 4% mostrou-se altamente arriscado numa perscpectiva internacional. Mesmo com suposições excessivamente otimistas, mostrou haver "safety" (segurança) somente em 4 de 17 países. Uma alocação 50%/50% em ações e Bonds falhou em algum período, nos 17 países.

 Para o Japão, por exemplo, o valor descoberto pelo estudo de Pfau para ser usado como SAFEMAX, foi de apenas 0,47%, no ano de 1940, com 37,5% de falha dentro de um período de 30 anos de aposentadoria, caso fosse utilizado o saque anual no percentual de 4% do estudo inicial de 1994, como sugerido no estudo de Bengen. Para a Itália, o SAFEMAX descoberto foi 1,56%, mas com uma absurda falha de 62,5% em 30 anos, usando 4% de saque anual e 76,3% usando 5%. 



Conclusão: para países diferentes, expectativas e resultados mais diferentes ainda: em alguns, foram inaceitáveis. Mas, com a possibilidade atual de se investir no exterior, seja onde for, isso pode ser resolvido.


- Idade da Aposentadoria -
   
 Como vimos nos gráficos ao longo dos textos analisados, quanto mais cedo alguém quiser se aposentar para poder usufruir do seu patrimônio acumulado, menor deve ser o SAFEMAX e mais risco deve ser adicionado ao portfólio (por volta de 65% em ações, ou até mais dependendo do apetite do cliente por volatilidade). 




Conclusão: idades diferentes ao se aposentar, criam expectativas de longevidade diferentes do portfólio de aposentadoria. Com maior apetite por volatilidade (renda variável) e um SAFEMAX menor, há uma expectativa de que ele dure por mais tempo; o inverso também é verdadeiro: com menos volatilidade e um SAFEMAX maior, teremos menor durabilidade do portfólio. 



- Rebalanceamento do Portólio -

 Outro fato importante, segundo palavras do próprio Bengen, era a reanálise da carteira e qual o período escolhido para fazer o rebalanceamento da mesma. No artigo de 1994, ele seria realizado todo início de ano; mas no artigo de 2006, claramente mostra que isso pode ser definido caso a caso, junto com o cliente.

 Darei um exemplo hipotético e bem provável: cliente com uma carteira com 75% em ações/25% em renda fixa, para quem investiu em ações no Brasil entre 2015 e o “oco” da queda de 2016. Vendo esta forte tendência de alta da bolsa até a presente data, com um belo lucro na carteira, opta por manter o portfólio como está até Janeiro de 2020, para então fazer o rebalanceamento. Eis que o mercado corrige para 80 mil pontos em Fevereiro de 2020, nosso cliente hipotético protegeu sua carteira de certa forma ao rebalancear e pode escolher fazer isso novamente em mais 1, 3 ou 6 anos. Segue a queda até os assustadores 60 mil pontos... Como citado no artigo de 1994, aqui quem tiver coragem pode escolher alocar 100% em ações e aguardar a alta do mercado e um belo ganho subsequente, com posterior rebalanceamento. 

 Não há sugestão de uma alocação de 100%  em ações e que seja permanente, em qualquer dos artigos que vimos de William Bengen

 Que fique claro: trata-se de uma decisão pessoal individual ou junto a um consultor financeiro, em que intervalo de tempo será feito o rebalanceamento do patrimônio - seja fixo anual, de 6 em 6 meses, de 3 em 3 anos, 5 em 5 anos ou mesmo sem prazo fixo. 

 No gráfico a seguir, do artigo de 2006 (link: Baking a Withdrawal Plan 'Layer Cake' for Your Retirement Clients), podemos ver os prazos de 3 meses até os 141 meses para se fazer o rebalanceamento, com os respectivos valores de SAFEMAX que garantiriam ao final de 30 anos que todos os portfólios testados tivessem valores iguais ou maiores que zero.



Conclusão: pelo gráfico acima, notamos que nas simulações analisando o "SAFEMAX x intervalo de rebalanceamento", os melhores resultados para o mercado americano foram no espaço entre 57 e 87 meses, sendo o pico (melhor SAFEMAX obtido) nos 75 meses, ou, de 6 em 6 anos para se fazer o rebalanceamento. Porém, não há um prazo fixo, esta é uma decisão do cliente! Pode escolher fazer todo início de ano, o que mostrou um SAFEMAX de mais de 4,4% e de 2 em 2 anos, acima de 4,5%.


- Estilo de Vida -

 Estilo de vida frugal + alta taxa de poupança anual = riqueza e juros compostos. Não existe mágica, nem erro numa estratégia bem arquitetada e colocada em prática de forma coerente. Aqui, não entram os que herdaram fortunas ou ganharam na Loteria, isso é ao acaso e a maioria empobrece rapidamente, logo após enriquecer sem ter se esforçado por isso. 

 Para pessoas já aposentadas, estudos americanos mostram que a maioria delas com menos de 70 anos gasta em média apenas 2% ao ano do seu portfólio (link: Frugal retirees ditch 4 percent rule, hoard savings instead); isso significa que o retorno dos investimentos frequentemente ultrapassa os saques anuais e que estão vivendo a aposentadoria como "acumuladores de dinheiro", mantendo seus investimentos o máximo de tempo possível. Em resumo, vivem de forma frugal e conservadora, mesmo após aposentadas.

 Depois dos 70 anos, há um rápido aumento do saque anual para em média 5%.



  Quanto as despesas, notaram que os americanos com média de 60 anos ou mais cortam suas despesas em torno de 2,5% a cada ano, ou aproximadamente 20% num período de 10 anos. Isso obviamente ajuda a aumentar o valor do saque anual seguro, pois há um diminuição gradual e constante nas despesas.



 E apesar da idéia que temos da fama e da ampla divulgação da "Regra dos 4%" nos EUA, parece que muitos investidores por lá não estão seguindo as instruções da mesma - ou, a desconhecem. 

 Outro dado muito interessante, citado também em um artigo de Michael Kitces (link: The Ratcheting Safe Withdrawal Rate – A More Dominant Version Of The 4% Rule?) e que explanei no segundo post desta série sobre SAFEMAX (A Regra dos 4% de William Bengen funciona? - Parte 2), é que os aposentados tem morrido e deixado verdadeiras fortunas, independente da idade que falecem. Os que morrem aos 60 anos, deixam em média 296.000,00 dólares, aos 70 deixam 313.000,00 dólares, aos 80 deixam 315.000,00 e aos 90 anos, deixam 238.000,00. 



 "(...) Os aposentados não estão aproveitando sua aposentadoria o tanto quanto poderiam".

 A sugestão de Kitces para tal problema de "subgastos" (digamos assim) e excesso de dinheiro desnecessariamente, mesmo após 30 anos de saques anuais, está muito bem explicado em meu post "2". A estratégia por ele proposta levaria a aumentos escalonados no SAFEMAX, levando o aposentado a poder gastar mais dinheiro ao longo da sua aposentadoria, sem ter que "viver no aperto" (como falamos no Brasil). Em resumo, um uso mais racional do portfólio, mas sem correr o risco dele acabar antes do cliente morrer. Afinal, caixão não tem gaveta e mortalha não tem bolso...

Conclusão: tudo na vida é questão de equilíbrio e planejamento, nas finanças não é diferente. Da mesma maneira que enquanto acumulamos o patrimônio para ser usado no futuro, devemos ter todo o cuidado para não levarmos uma vida miserável, ao chegar a aposentadoria é importante ter o mesmo cuidado. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Ninguém sabe quando vai morrer, então é irracional não usufruir daquilo que acumulamos com tanto trabalho e estudo. O SAFEMAX serve sim como uma base para tal avaliação dos gastos.     


- Herdeiros ou Não? -

 A decisão de se deixar um saldo final (pequeno ou grande) ou não, do portfólio de investimentos para a aposentadoria, tem influência direta no valor do SAFEMAX.  Isso é muito fácil de entender: se não queremos deixar herança ou doar o saldo final da carteira para alguma instituição de caridade (sim, há quem faça isso, principalmente fora do Brasil), se a decisão do cliente é a famosa expressão "die broke" (morrer "duro"), ele poderá usar um SAFEMAX maior na sua aposentadoria e gastar mais durante a mesma. 


 Quem quer deixar herança, terá que fazer maiores ajustes e sacar menos dinheiro anualmente, para não correr o risco do dinheiro acabar antes... de morrer. Quanto maior o valor final que se queira deixar de herança, menor deve ser o SAFEMAX (ver o gráfico acima). 

Conclusão: a idéia de deixarmos um saldo final como herança ou doação, tem interferência direta no valor do SAFEMAX. Saldo final e SAFEMAX, são inversamente proporcionais.

- King of The Mountain -

 Quem assistiu "Game of Thrones", sabe como a luta pelo trono é sangrenta e muitas vezes, suja. A decapitação de Ned Stark:


 A expressão inglesa “King of The Mountain” tem o significado de que alguém está no topo e outros tentam derrubá-lo, seja numa brincadeira infantil (na areia ou na neve), ou na vida real. Bengen ao publicar seu primeiro artigo em 1994, criou um marco usado até hoje por consultores financeiros e gente de todo tipo - como nós, investidores. Criou uma "rule of thumb" (regra prática, regra de ouro, critério guia ou norma). Tenho certeza que o fez sem ambição; mas querendo ou não, ela o fez famoso e o colocou numa posição importante em seu meio. 

 Ser famoso, gera inveja. Como diz um amigo meu, "para ter inimigos, basta ter opinião", pior ainda sendo famoso! De forma alguma, criticarei aqui os artigos de quem realmente leu todo o trabalho sobre SAFEMAX por ele publicados; e que fazem uma análise técnica e científica dos pros e contras das conclusões do trabalho de Bengen: esta é a função do debate construtivo, sem ele estaríamos nas trevas da verdade inquestionável.

 Minha crítica, é contra muita gente que em pleno 2019, publica artigos detonando "a Regra dos 4%" (que não é 4% há muito tempo!), mencionado exclusivamente o artigo de 1994 (link: Determining Withdrawal Rates Using Historical Data) e nada além disso. Depois, no mesmo texto onde criticam, aproveitam para oferecer: e-books de investimentos, cursos, assessoria para planejamento financeiro, assinatura de sites financeiros, etc... Má fé ou desinformação dos críticos? Ou ambos?

 Isso, é advogar em causa própria, tentando derrubar alguém que está no "topo" de forma rasteira, com o uso sujo da desinformação. Nem perderei tempo em postar aqui os links que achei com tal tipo de abordagem. É desnecessário.


Conclusão: o debate sobre a real funcionalidade e aplicação do  SAFEMAX é saudável, desde que seja realizado num ambiente acadêmico e sem viés de autopromoção ou lucro secundário. De preferência, por alguém que no mínimo tenha lido e cite todos os artigos a ele relacionados, como referência. Ninguém bate em "cachorro morto", por isso batem tanto em WB.

 Para finalizar este quarto post, sugiro que leiam este artigo de 2015, do jornal "The New York Times" (link: New Math for Retirees and the 4% Withdrawal Rule), muito objetivo e de fácil leitura. Nele, o autor cita prós e contras, nomes de pessoas que estudam o trabalho de WB e artigos também. E o mais importante: o SAFEMAX continua no jogo! 


 
 
   Caso ainda não tenha lido, seguem os links para os posts números 1, 2 e 3: 

7 comentários:

  1. Mas virou uma novela comprida essa hahahaha

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  2. Realmente, entender as coisas, explicar de forma coerente, leva um certo tempo. Mas, isso depende do grau de instrução de quem lê... No Infomoney, você encontra matérias mais curtas! ; )

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  3. Olá, HM.

    Estou gostando dessa sequência. Parabéns pelas pesquisas e pela riqueza de detalhes no artigo.

    Abraços!

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  4. CI, fico feliz que tenha gostado. Quando existem muitas variáveis e também muita desinformação sobre o assunto, temos que ter todo o cuidado com aquilo que postamos. Tamo junto.

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  5. HM, excelente textos. Muito rico em detalhes, bem didatico. Obrigado por compartilhar!

    abs,
    Executivo Investidor

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  6. Obrigado, EI. É exatamente esta a idéia e você usou a palavra certa: didática. Estou usando uma sequência lógica desde o começo dos posts desta série:

    1- Ler todos os artigos originais, sem deixar brecha para "afirmar sem saber";
    2- Usar as exatas palavras do autor (Bengen), para que tudo que venha a ser afirmado ou contestado, seja sobre fatos, ao invés de flatos (KKKKKKK...);
    3- Filtrar os "clickbaiters", espalhados pela Internet, que atacam o trabalho de WB sem embasamento e oferecem os seus próprios!
    4- Mostrar as fraquezas e forças dos estudos dele, com as devidas contestações que sofreu ( e as confirmações também), que nos conduzam então ao item 4;
    5- Chegarmos até nossas próprias conclusões, independente do resultado final.

    Obrigado por comentar. Se achar algo de errado nos textos, só avisar!

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  7. olá,
    "descobri" seu blog hoje e fiquei feliz por encontrar um perfil com muitas semelhanças comigo; Paixão pelo Heavy Metal, investimentos com aceitação de risco consciente, análise critica de "frases prontas" e "modelos" vendidos como universais, e não menos importante o anti socialismo.
    Falando particularmente da regra dos 4%, eu não vou cravar que não funciona pro Brasil, mas não adotaria. Entendo como um forma de "dar um norte", mas a medida que cada um se aproxima de sua FIRE deve fazer projeções mais complexas, prever diversos cenários de gastos e receitas e depois fazer acompanhamento/revisão constante.

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