terça-feira, 1 de março de 2011

Lucro financeiro da Petrobras esconde fraca performance operacional no trimestre

SÃO PAULO - O sinal negativo das ações da Petrobras (PETR3, PETR4) no pregão após a publicação dos resultados de 2010 reflete a apatia do mercado frente aos números da estatal. No geral, o balanço não agradou os analistas do mercado, que veem pouca influência das cifras no desempenho das ações a curto prazo.
 A Petrobrás fechou 2010 com lucro líquido recorde de R$ 36 bilhões, 8% acima do desempenho de 2009. No entanto, os analistas apontam que esse forte ganho deve-se principalmente ao melhor resultado financeiro, que foi beneficiado pela desvalorização do dólar em 2010, já que a empresa é devedora em moeda estrangeira, explica Nelson Rodrigues de Matos, do BB Investimentos. A posição financeira da estatal em 31 de dezembro de 2010 encontrava-se devedora de R$ 29,999 bilhões em moeda estrangeira.
 Com isso, o enfraquecimento do seu desempenho operacional acabou sendo ofuscado, apontam Emerson Leite e Marcos Guerra, do Credit Suisse. "A Petrobras superou em torno de 8% nossas expectativas de lucro líquido [para o 4º trimestre] apenas por causa do melhor resultado financeiro", afirmam os analistas. "Já o Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciações e amortizações) veio 11% abaixo de nossas estimativas", complementaram.





Upstream e downstream derrubam Ebitda
 Segundo o Credit Suisse, essa fraca geração operacional de caixa deve-se à fraca realização de preços tanto nas atividades de upstream (localização, perfuração e produção) quanto nas de downstream (logística). No upstream, o banco de investimentos destaca que a diferença de preços entre o petróleo nacional com o petróleo Brent (negociado na bolsa de Londres) foi de US$ 4,80/barril para US$ 6,80/barril, ofuscando a alta de 14% nas cotações do Brent no último trimestre de 2010.
 Já no downstream, os analistas argumentam que o óleo produzido no Brasil foi vendido a um preço médio de R$ 159,00/barril, praticamente em linha com o preço em reais visto no terceiro trimestre e 3% acima do preço em dólares, tendo em vista a alta nas cotações internacionais. "Isso, ao nosso ver, é intrigante, mesmo se considerarmos que os preços do diesel e da gasolina, que respondem por 61% das vendas domésticas no segmento, ficaram inalterados na passagem trimestral".
 Seguindo esta linha, os analistas Marcos Pereira, Daniel Fonseca e João Arruda, da corretora Votorantim, deram ênfase às maiores despesas de custos nos negócios da cadeia upstream, que acabaram trazendo os resultados de E&P (Exploração e Produção) da empresa para níveis piores do que o esperado. Por conta disso, eles esperam um efeito negativo sobre as ações da Petrobras no curto prazo.Segundo Leite e Guerra, os motivos para a fraca realização de preços deverão ser explicados durante teleconferência de resultados, que será realizada nesta terça-feira (1), às 10h (horário de Brasília), "já que isso foi a principal razão por trás do fraco Ebitda".
Abastecimento: supresa positiva, mas que não deve se repetir
 Já no segmento de abastecimento, a Petrobras reportou um lucro líquido de R$ 1,4 bilhão entre outubro e dezembro, resultado que superou de longe as projeções da Link Investimentos, que esperava um desempenho próximo de zero. "Esperávamos um potencial de queda dos resultados em função da elevação do preço do petróleo nos últimos meses e da manutenção dos preços dos derivados no Brasil, pressionando as margens do segmento. No entanto, esse fato não ocorreu", explica em relatório o analista Andrés Kikuchi.



 Essa surpresa foi reflexo do maior volume de exportação líquida de petróleo e derivados, bem como da realização de estoques formados nos períodos anteriores a um custo inferior dos atuais, afirma Kikuchi.



 No entanto, o analista não espera que o patamar atual do segmento consiga se manter nos próximos trimestres, o que deverá penalizar ainda mais a geração operacional de caixa da Petrobras. Com isso, ele manteve sua recomendação "market perform" (performance em linha com o mercado) para as ações da empresa, "apesar do resultado superior ao projetado [pela Link] para o período".



Capex maior para 2011: uma surpresa negativa
 Outro ponto negativo no resultado da Petrobras destacado pelos analistas do Credit Suisse é o capex (investimento em bens de capital) estimado para 2011, de R$ 93,6 bilhões - ante R$ 76,4 bilhões em 2010 -, o que aumenta ainda mais as preocupações acerca da evolução do fluxo de caixa e do balanço corporativo da Petrobras.
 Segundo Leite e Guerra, o fluxo de caixa descontado da estatal ficou negativo em R$ 4,5 bilhões, acima dos R$ 3,9 bilhões que eles tinham previsto, levando a dívida líquida da empresa para R$ 62,1 bilhões. "Isso significa que os US$ 25 bilhões levantados na maior capitalização do mundo em setembro passado apenas serão suficientes para tapar os gastos maciços por um período de 4 a 5 trimestres", afirmam os analistas.
Diferentes expectativas para as ações
 Assim como o Votorantim, o Credit Suisse acredita que os resultados do 4T10 da Petrobras não trouxeram nenhum motivo para mudar o viés cauteloso sobre a companhia por enquanto. "Em termos de valuation, continuamos vendo a Petrobras como uma opção não atrativa em termos relativos", afirmam Leite e Guerra, recomendando aos investidores que se posicionem em outras ações do setor caso eles queiram se beneficiar do momentum favorável dos preços do petróleo.
 Já Marco Antonio Saravalle, da Coinvalores, não espera grande impacto nas ações da empresa no curto prazo, tendo em vista que o resultado da Petrobras veio em linha com o esperado. No entanto, diferentemente do Credit Suisse, Saravalle mantém uma visão positiva a respeito da companhia, sobretudo pelas boas perspectivas ligadas às commodities. "Acreditamos que esse cenário deve impulsionar o papel no médio e longo prazo", conclui o analista da Coin.



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